ALONSO, DESINTERESSADO EM EVOLUIR O CARRO DA RENAULT EM 2009, ACABOU POR TER UMA MÁ INFLUÊNCIA NO DESEMPENHO DE NELSINHO PIQUET


O engenheiro brasileiro da Lotus Ricardo Penteado já teve a rara oportunidade de trabalhar de maneira próxima a alguns pilotos do primeiro escalão da F1. O carioca, engenheiro de motores, está na equipe desde os tempos em que esta se chamava Renault, na década passada, e fez parte do grupo que conquistou dois títulos em sequência, em 2005 e 2006, com Fernando Alonso.
Em entrevista ao Tazio, Penteado indicou que o piloto espanhol, desinteressado em evoluir o carro da Renault em 2009 por já ter contrato com a Ferrari para o ano seguinte, acabou por ter uma má influência no desempenho de Nelsinho Piquet e Romain Grosjean, com quem dividiu a garagem naquele ano.
“O Fernando já tinha o contrato assinado com a Ferrari e não tinha interesse nenhum em preparar ou desenvolver o carro para 2010. Não que o Fernando tenha piorado o carro de propósito, mas não estava empenhado ao máximo para desenvolvê-lo”, afirmou o carioca. “Quando você, novato, tem um bicampeão idolatrado pela equipe dizendo que ‘está bom do jeito que está’, você acaba sendo influenciado, assim como toda a equipe, e tenta se adaptar ao carro em vez de impor seu próprio acerto.”
Engenheiro Ricardo Penteado (Foto: Divulgação/Renault Sport)
Atualmente, Penteado trabalha diretamente no carro de Kimi Raikkonen, que, segundo ele, tem uma oportunidade real para fazer com que a equipe volte aos seus momentos de glória com a conquista do título. Para o engenheiro, o desempenho apresentado pelo piloto na primeira metade da temporada, em um carro que considera uma “obra de arte”, elevou as expectativas da Lotus para a reta final do ano.
“Acho que a segunda parte da temporada promete muito. Teremos uma boa evolução em Spa-Francorchamps, um dos circuitos preferidos de Kimi, e estando somente oito pontos atrás do segundo colocado. Acredito que temos boas chances de lutar pelo titulo”, afirmou o engenheiro.
Desde que retornou à categoria, no início do ano, após duas temporadas afastado, Raikkonen conquistou cinco pódios e disputou vitórias em algumas ocasiões, o que o colocou na quinta colocação do Mundial. “Acho que ninguém poderia imaginar, em dezembro passado, que já teríamos tantos pódios na metade do ano”, lembra o brasileiro.
Mas, para descontar a diferença de 48 pontos em relação ao líder, Alonso, Penteado aposta na total adaptação de Raikkonen à equipe e ao modelo E20 – o que, segundo ele, aconteceu somente na prova passada, quando o piloto foi segundo colocado. “O Kimi se adaptou muito rapidamente, mas acho que somente no GP da Hungria que ele realmente virou ‘expert’ em todos os sistemas do carro”, explicou.
Penteado também comparou o método de trabalho de Raikkonen com outros nomes com quem trabalhou, como Alonso e Robert Kubica. “Ele não fala muito, mas quando fala é importante escutar bem, pois, com certeza, é coisa importante”, destacou.
Confira a entrevista completa com o engenheiro de motores da Lotus, Ricardo Penteado:
Que avaliação você faz da temporada da Lotus até o momento? Vocês estão cumprindo com os objetivos que traçaram no antes do início do campeonato?
A temporada está sensacional! Acho que ninguém poderia imaginar, em dezembro passado, que já teríamos tantos pódios (cinco com o Kimi e três com o Romain) na metade do ano. Estamos trabalhando a todo vapor para poder ganhar pelo menos uma corrida nesta temporada, pois a equipe merece.
Qual é a avaliação que você faz do modelo E20 em comparação aos demais carros do pelotão da frente, como Red Bull, McLaren e Ferrari? Quais são os pontos fortes e fracos do carro de vocês?
O E20 é um dos melhores carros com o qual já trabalhei (o R25, de 2005, ainda é o meu preferido). O carro é simplesmente fantástico por baixo das carenagens! A integração de todos os acessórios com a otimização do volume, da aerodinâmica e da mecânica, é simplesmente uma obra de arte! Mas pena que eu não possa entrar nos detalhes.
Acho que um dos pontos fortes é a capacidade em gerenciar os pneus do início das corridas, com bastante combustível, até o fim. Esse ano posso falar que a aerodinâmica do carro também é um dos pontos fortes, com um DRS muito eficiente. Nosso ponto “fraco” são as classificações, mas já sabemos o que tem que ser melhorado. Acho que na segunda parte da temporada as coisas vão mudar.
Você acha que a Red Bull foi muito afetada com a questão do mapeamento de motores?
A Red Bull está liderando o campeonato por estar sempre no limite das regras. A soma de todos os milésimos que conseguem ganhar nos múltiplos sistemas faz com o que o carro seja o mais rápido de todos. Os milésimos que perderam com o mapeamento do motor não afeta tanto a performance global do carro.
Nestes meses que você trabalhou com o Raikkonen, que tipo de impressão ficou? Como ele é tecnicamente e na parte de relacionamento com o time?
O Kimi é, sem dúvida, um piloto muito diferente de todos os outros com quem já trabalhei. Ele não fala muito, mas, quando fala, é importante escutar bem, pois, com certeza, é coisa importante. O relacionamento dele com o time é muito profissional e o grande respeito mútuo faz com que as coisas funcionem bem. Demorou um pouquinho para todos nós, engenheiros, entendermos como trabalhar da melhor maneira com ele. Mas, agora que decodificamos o “Iceman”, é muito bacana.
Como foi o processo de readaptação do Raikkonen à F1? Você acha que ele ainda tem margem para melhorar?
Com certeza! O Kimi esteve parado por dois anos. Em 2009 eram outros pneus, não existia o DRS, o carro praticamente nunca andava com mais de 90kg de combustível, já que o reabastecimento ainda era autorizado, o peso mínimo do carro era outro … Leva-se um tempo para assimilar todas essas mudanças e tirar o máximo de proveito do carro. O Kimi se adaptou muito rapidamente, mas acho que somente no GP da Hungria que ele realmente virou “expert” em todos os sistemas do carro.
Que avaliação você faz do Kimi como piloto, até mesmo em comparação com outros com quem você já trabalhou, como Robert Kubica e Fernando Alonso?
O Kimi tem um talento natural fora de série. Acho que uma boa comparação com a aeronáutica pode ajudar a descrevê-lo. Digamos que ele seja um dos melhores [ou o melhor] piloto de acrobacias do mundo, onde as qualidades fisiológicas de orientação, de timing, de avaliação de velocidade e aceleração são mais importantes para a realização de um programa acrobático perfeito do que o conhecimento técnico por trás da concepção mecânica do avião.
O Kubica ou o Alonso seriam astronautas, onde as qualidades naturais são também muito importantes, mas o conhecimento técnico e a preparação científica por trás de cada sistema são indispensáveis.
A F1 seria, então, o avião de caça, onde tanto o lado fisiológico quanto o técnico têm que estar 100%. O Kimi precisa se esforçar mais que os outros para assimilar o lado técnico e científico, enquanto o Kubica ou o Fernando usam a ciência para melhorar seus talentos naturais.
Mesmo que o Raikkonen esteja bem no campeonato, ele ainda não consegue acompanhar o Grosjean nos treinos classificatórios. O que explica isso? E quanto vocês acham que isso o atrapalha nas corridas, já que geralmente larga atrás de onde deveria?
O Romain está fazendo um ótimo trabalho em classificações desde Melbourne, primeira corrida do ano – acho que, por ter um perfil mais de astronauta que de piloto de acrobacias, ele estudou o carro e o catálogo de acertos inteiro antes dos treinos de inverno e, por isso, conseguiu colocar todos os sistemas em 100% mais cedo que o Kimi.
Não podemos esquecer que tivemos muitas classificações em condições de loteria, com pista mudando bastante, onde o Kimi teve menos sorte que o Romain. Acho que os dois estão fazendo um excelente trabalho e, em Spa, se não chover, vamos finalmente largar de uma posição mais competitiva e poder brigar pela vitoria.
Durante o GP da Hungria, o Raikkonen afirmou que “encontrou o que estava faltando” para tirar o máximo do carro. O que é?
Pilotar um carro de F1 não é facil e tirar realmente 100% do sistema inteiro é ainda mais complicado. O uso do Kers (gastar nas doses certas e nos momentos certos, recarregar na dose certa para não desestabilizar o carro na freada), do DRS (não ativá-lo cedo demais para não perder tração e usar o máximo de vezes que tiver a possibilidade), além de acertar os inúmeros parâmetros de acerto do carro e saber o quanto pode atacar nos pneus para não gastar demais nem de menos durante um trecho de corrida… Tudo isso requer uma preparação e um conhecimento absoluto do carro. Acho que o Kimi conseguiu chegar nesse nível somente na Alemanha, mas foi uma pena que choveu na qualificação.
Hoje em dia, como está o espírito de trabalho e motivação da Lotus? Vocês se sentem embalados e capazes de lutar pelo título? Como está a motivação da equipe e do Raikkonen para o restante da temporada?
A motivação está muito forte. Começamos a temporada com um carro muito bom, sendo que éramos a única equipe de ponta com dois pilotos que não participaram das temporadas de 2010 e 2011! Acho que a segunda parte da temporada promete muito. Teremos uma boa evolução em Spa, um dos circuitos preferidos de Kimi, e estando somente oito pontos atrás do segundo colocado. Acredito que temos boas chances de lutar pelo titulo.
Por que o Grosjean está tão melhor agora em relação ao visto em 2009? 
O que está dando certo hoje com o Romain veio com a maturidade. Em 2009, ele foi jogado no carro no meio da temporada, substituindo um piloto carismático, com quem a equipe gostava de trabalhar. Não é mole você chegar na garagem e falar “aí, moçada, o Nelsinho era gente boa, mas agora o chefe aqui sou eu!”. Ainda mais quando você não tem experiência nenhuma da F1, tem uma pressão do [Flavio] Briatore e também um bicampeão como companheiro de equipe. O Romain acabava não sabendo como impor seus acertos e acabava sofrendo com os “desacertos” do Fernando.
Não podemos esquecer que, em 2009, o Fernando já tinha o contrato assinado com a Ferrari e não tinha interesse nenhum em preparar ou desenvolver o carro para 2010. Quando o Kubica entrou no R29 pela primeira vez, ele entendeu porque os novatos tinham tanta dificuldade com o carro. Não que o Fernando tenha piorado o carro de propósito, mas não estava empenhado ao máximo para desenvolvê-lo.
Já em 2012, é outra história! Ele [Grosjean] esteve como reserva na equipe em 2011 e fez ótimos treinos livres nos GPs de Abu Dhabi e Interlagos, conquistando a confiança da equipe. Fez todos os testes de inverno, criou contato com os mecânicos e engenheiros, além de ter amadurecido muitos durante esses dois anos fora da F1. Hoje ele é o dono do carro nº 10, não como em 2009, onde o carro era do Nelsinho e preparado segundo as vontades do Fernando.
Então foi por isso que o Nelsinho teve dificuldades também ao lado do Alonso?
O Nelsinho é muito parecido com o Kimi, muito mais acrobático do que astronauta. Tem um talento natural muito bom e é realmente muito rápido, mas, em 2009, ele ainda não tinha maturidade e experiência/confiança em acerto de F1 suficientes para ajustar o próprio carro – ainda mais se fosse no sentido contrário ao do Fernando.
Quando você, novato, tem um bicampeão idolatrado pela equipe dizendo que “está bom do jeito que está”, você acaba sendo influenciado, assim como toda a equipe, e tenta se adaptar ao carro em vez de impor seu próprio acerto. Se eles [Nelsinho e Grosjean] tivessem tido o Kubica como companheiro de equipe, a história teria sido outra. Mas, com o “se”, teríamos o Ayrton Senna ainda vivo e com mais títulos que o Schumacher, ou Kubica liderando o campeonato de pilotos!

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